sábado, 22 de dezembro de 2007

O Ano Novo que Não Veio

       Dia frio e cinzento de mais uma véspera de Ano Novo. Kátia passou horas sentada na cadeira de balanço que fora de sua avó, enquanto esperava pela ligação de seu namorado. A angústia consumia suas entranhadas, dilacerava suas vísceras, como se quisesse dominar todo o seu ser. Cada minuto passava com tamanha demora que ela já havia se conformado de ter estado sentada por pelo menos décadas. A ansiedade por um telefonema de seu amado corroia seu estômago, ela sentia como se fosse engasgar...
       Rejeitou o almoço e o café da tarde para não desgrudar do telefone, esperava por um toque frenético a qualquer momento; mas esse toque não chegou. Adormeceu sobre o encosto da cadeira e sonhou...
Adormeceu sobre o encosto da cadeira e sonhou...       Sonhou com a beleza da vida, com o frescor da brisa em seu rosto, com os relaxantes pingos de chuva, o calor da areia macia da praia e o bater da água nas rochas. Imaginou-se linda, em seu vestido azul turquesa, caminhando pela costa de uma belíssima praia. Seus pés tocavam a areia molhada, e eram acariciados pelas fracas ondas que vinham em seu encontro. Caminhava mais adiante, e não se cansava de ir além. No horizonte, união sublime entre céu e mar, avistou um navio, observou-o curiosa, e notou que este alterara seu curso e vinha em sua direção, mas ainda muito longe.
       Fechou os olhos e pôde ouvir o canto das gaivotas e, ao fundo, a buzina da embarcação. O som tomava cada vez mais conta de seus ouvidos, ia se tornando mais nítido... Ela já não ouvia apenas a buzina, mas um sussurro tranqüilo que parecia querer dizer algo, algo que seus ouvidos mortais tentavam decifrar...
       TRIRIRIRIM! TRIRIRIRIM! O telefone tocara. Ela já não estava mais ansiosa por esta ligação, o sonho havia lhe tomado a atenção e sua vontade era voltar a dormir e tentar compreender. Hesitando, atendeu ao telefone:
       “Alô?” – disse.
       “Kátia? Oi, amor, aqui é o Lucas. Mil perdões por não ter te ligado antes, juro que tentei entrar em contato, mas tive uma viagem difícil, o trajeto foi conturbado, mas agora estou bem, e fico muito contente por saber que o mesmo se passa contigo”.
       “Lucas? O que aconteceu? Do que você está falando? Está perdido? Alguém te machucou? Estou indo te encontrar!”
       “Amor, é melhor você ficar em casa e esperar que eu retorne, ok?” – disse o namorado.
       Aflita, preferiu aguardar. Novamente, a angústia consumiu seus pensamentos, formigou seus membros e fez o sangue circular com mais intensidade. Ao embalo do “tic-tac” do relógio, voltou a cochilar, e pôde se ver na mesma praia, com o mesmo vestido azul, sobre a mesma areia macia, caminhando à beira mar, até ser envolvida pelo mesmo sussurro.
       Curiosa para entender o significava, fechou os olhos na tentativa de compreender a mensagem, que fora bruscamente interrompida pelo sopro violento de um vento raivoso. O clima mudara: o mar não acariciava mais seus pés, as gaivotas não mais cantavam, o sol dera lugar a nuvens escuras, enquanto as rochas resistiam às fortes pancadas das ondas. A areia esfriou-se rapidamente com a chuva forte que tomou conta de toda a costa.
       Preocupada, correu sem parar em busca de um abrigo, mas não encontrou. Trovejava muito, ela não podia ficar ali. Decidiu fazer o caminho de volta correndo com mais velocidade e, enquanto corria, tornou a ouvir o sussurro, mas já não era mais suave. A voz doce havia dado lugar a um som agressivo, ríspido e gélido. Como já não compreendia, resolveu não dar atenção à curiosidade e buscar proteção. Sentada sobre a areia, acomodou a cabeça entre as mãos e pôde novamente ouvir a buzina ensurdecedora daquele navio e...
       Havia acordado outra vez. Estava na sala, sentada sobre a mesma cadeira de ... lá estava Lucas, sentado na grama verde e brilhante.balanço que fora de sua avó, mas o cômodo não parecia como antes. As janelas não estavam mais sujas, os móveis brilhavam, e as flores mostravam-se mais vivas do que nunca. Kátia atravessou o corredor rumo ao jardim e lá estava Lucas, sentado na grama verde e brilhante. Sentou-se ao seu lado.
       “Lucas, você está bem? Chegou faz muito tempo? Adormeci e não devo ter te ouvido entrar.”
       “Estou sim, apenas preocupado, estava sozinho e você parecia não chegar.” – disse ele.
       “Como assim? Estive adormecida na sala o tempo todo, você podia ter me acordado.”
       “Eu bem que tentei, mas não era uma decisão que cabia a mim.”
       “Do que você está falando? E quem arrumou a sala?”
       “Kátia, quero que você compreenda...”
       “Compreender o quê?!” – gritou confusa.
       “O navio em sua direção avisando-a de uma viagem, a buzina... não estava tudo claro? Eu também pude ouvi-la, senti o frescor da brisa, vi o mar reverenciá-la, ouvi o cantar das gaivotas... tentei te chamar várias vezes...”
       “A voz... aquela voz era sua? Por que eu não pude entender?”
       “Porque havia um finíssimo obstáculo entre nós, uma divisão que não podemos quebrar e que sempre se desfaz sozinha: a vida.”
       “O quê? Aonde você quer chegar?” – disse enquanto se apalpava, e pôde sentir a textura do vestido azul turquesa que usara no sonho.
       “Querida, vá até a sala, creio que tudo ficará claro.”
       Caminhou de volta ao cômodo em passos curtos e silenciosos. Estava muito confusa, não se lembrava de ter trocado de roupa, tampouco de como a sala havia sido arrumada. Avistou de longe as costas da cadeira de balanço, no mesmo lugar onde sempre estivera. Forçou os olhos para reconhecer o que era aquele contorno. Aproximando-se cada vez mais lentamente, pôde reconhecer sedosos cabelos negros iguais aos seus. Prendeu a respiração, na tentativa de surpreender quem quer que estivesse sentado ali. Ironicamente, a única pessoa surpresa fora ela mesma, quando reconheceu os cabelos e o agasalho batido como seus. Mãos sob o rosto e olhos serenos, certamente estava adormecida.
       A passagem de ano já não lhe fazia diferença, havia passado a última de todas as fronteiras. Adormecera eternamente.

16 Comentários.:

Claudia disse...

Nooossa Ro, fiquei bestaa
gostei do texto, ele me prendeu pra ler até o fim, eu tava louca pra saber o que aconteceu com o Lucas, o que aconteceu com ela.
Fiquei um pouco confusa mas tudo bem uhauhauh.
PARABENS
e que você tenha um feliz ano novo
mas nao desse jeito viu rs

Beijos

Luana Carla Scomparim disse...

Ro.....valeu a pena o tempo que vc demorou com este conto hein...ficou realmente mágico..a palavra é essa mágico..eu amei....parabéns....=]

Mila disse...

Adorei não só o texto, como o blog ;D
Obrigada pelo comentário!
;*

Fernando Assad disse...

Olá, tudo bem?

Que bom que gostou do blog! Muito obrigado!! Pode adicionar o link do meu blog, e também vou adicionar o seu, pois gostei também!
Parabéns!

Um abraço!!

Mila disse...

Claro que não me importo!
Obrigada!
Vou adicionar o seu blog na minha lista também, posso? :D

;*

Carlos S. disse...

Parabéns pelo blog muito bom,espero que tenha sucesso com ele. Gostaria de dar uma pequena dica, porque você não divulga seu blog no Brigg1?

Eu divulgo meus blogs lá.

www.brigg1.com

E se estiver disposto a fazer parcerias entre em contato.

Abraços

Gregory Vancher disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gregory Vancher disse...

bom, estou com um pouco de pressa, por isso não lerei seus textos agora, somente mais tarde (de madrugada, talvez). Quanto a linkar meu blog, é claro que pode, sem problema algum, só peço que envie para meu e-mail o banner do seu blog para que eu tb possa te linkar!

Mila disse...

Será sempre bem vindo :D

Fique bem, e bom Natal

;*

Rharry Belloti disse...

Muito lindo seu texto!! Fiquei presa à ele, curiosa para saber o que estava acontecendo. Parabéns.

Obrigada pelos elogios ao meu blog e volte lá mesmo. Também estou começando agora com ele.

É legal divulgar seu blog nessas comunidades de orkut, eu faço isso. No início você recebe muito comentário superficial, de gente que tem um blog só para dizer que tem. Mas o pessoal que gosta mesmo de escrever, sempre vai ler os textos e deixar algo, mesmo que seja uma crítica. E foi nessas comunidades que consegui alguns leitores fixos.
Beijo.
Você vai para meus favortos, ok!!

Nome:Fabíola Weykamp disse...

Muito,muito,muito,muito lindo esse texto. Certamente virei aqui com frenqüência. Fico feliz por teres achado o meu blog, e mais ainda por vê-lo em sua lista de sites. Muito obrigada mesmo. Adicionei o seu, se não tiver problema. Parabéns pelo blog. E por favor: continue escrevendo!!!
Um abraço!

Carlos S. disse...

Então, é isso mesmo, eu gostaria que linka-se os três e eu adiciono o link do seu nos meus 3 blog, se estiver disposto me avise

Abraços

Gregory Vancher disse...

Incrivelmente bem escrito e muito bem conduzido.
Sua narrativa prende usando ,ora um ritom suave, ora uma ansiedade que sai das palavras em nossa direção. Estou impressionado com esse texto, muito bem escrito mesmo (desculpe-me, pela reptição)
Muito bom, parabéns!

Nome:Fabíola Weykamp disse...

Fico contente por ter te dado idéia, mesmo que indiretamente. E foi sincero o meu comentário. O seu texto é muito bonito.E peço a ti que não pares de escrever. Precisamos ler palavras que tocam fundo, e que nos fazem pensar e sentir além do que vem pronto. Precisamos disso - repito, tamanha importância.

Seria ótimo que tu continuasses com esse conto. Acredito que ai dentro de ti tem muitas outras e tantas mais belas frases pedindo com urgência para serem impressas.

Aguardo, ansiosa, por mais sentidas colocações.
Um abraço, e segue firme neste propósito, ainda há muitos corações a serem atingidos por tuas harmônicas palavras.

Outro abraço!

Lucas disse...

Pensei em ler,mais quando li o primeiro paragrafo,desisti,e fui durmi

Anônimo disse...

Sim, provavelmente por isso e