domingo, 30 de dezembro de 2007

Metalinguagem Poética

Na memória, procurei.
Nas gavetas, vasculhei.
Cansado de não encontrar,Metalinguagem Poética.
Resolvi, então, eu mesmo criar.

Letras, palavras, frases,
Acentos e até mesmo crases...
Todos distantes demais,
Tampouco deixaram sinais.

Papel e caneta na mão,
Do sonho à realização.
Linhas e textos bem feitos,
Junção do incerto e perfeito.

(Rodrigo Colombaro)

sábado, 29 de dezembro de 2007

A Crítica dos Sonhos

       Meu ideal seria escrever uma crítica daquelas de parar as pessoas, do tipo de texto que todo o mundo lê, percorrendo o planeta por e-mails anônimos. Uma crítica que escandalizasse a fome e a miséria; o abuso de poder governamental, e de tantas outras autoridades; da natureza e do que o dinheiro tem feito com ela, uma verdadeira tristeza. Já pensou se os professores comentassem sobre o texto com seus alunos? Geografia, português, história, inglês (caso a obra fosse além-mar), biologia... enfim, todas as disciplinas elogiando minha criação por ser tão concisa e completa. Um dia eu chego lá, até porque...
       Enquanto países pobres, como os da África, passam fome por falta de meros grãos, outros como o nosso esbanjam fartura na mesa, em que a carne já deixou de ser mera “mistura”, passando para prato principal. E a natureza? Quem se preocupa? Animais morrem sozinhos em galpões escuros, alguns agonizam até a morte, sangram, sagram... de modo que percam forças lentamente. A crueldade humana chegou a tal ponto que alguns são cultivados em corredores estreitos, para que fiquem imóveis, desenvolvendo carne macia. Nossa Amazônia agradece por mais e mais hectares... de pasto! Árvores centenárias desmatadas? Fauna e flora extintas? Quem liga? O importante é ter bife na mesa, graças aos esforços do governo!
       E quanto aos escândalos? E o mensalão, quem lembra? Quase ninguém, claro, pois o que importa é ter leitão fresco no Natal, graças, mais uma vez, ao trabalho do governo! Mas esse governo é mesmo um primor, tem gostinho de picanha com sangue, afinal o bezerrinho não seria separado da mãe tão cedo para sangrar por nada... tem que ir tudo para a grelha!
       Contudo, se alguém, de fato, utilizasse de pleonasmo vicioso para “criticar a minha crítica”, questionando a veracidade das informações, eu seria muito sincero - tão sincero quanto o nosso inigualável presidente - e diria categoricamente: “Esta crítica não é minha, eu não sabia de nada”.

Nota: estou preparando um conto novo, e já tenho toda a trama, mas estou tendo dificuldades para escrever, pois são muitas emoções que quero transferir de uma vez só. Gostaria de pedir aos leitores muitas energias positivas para finalizar o texto! ;)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Globalizada Esfera Individualista

Estou cansado de caminhar.
Para onde vou,
Qualquer caminho,
Por mais que sozinho,
É um destinho,Globalizada Esfera Individualista.
É um lugar.

Como se o poder aquisitivo
Fosse o combustível,
Que controla a velocidade
Desse grande fusível
Prestes a queimar.

Aonde vamos chegar?
Essa globalizada esfera indidivualista
Parece, aos poucos, parar de girar.

(Rodrigo Colombaro)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Fragilidade Incandescentemente Cristalina

       Quatro horas da manhã, e Lúcia ainda se revirava por entre os poucos lençóis da cama; as noites estavam cada vez mais quentes e ela sofria muito com o calor do verão. Fechou e abriu os olhos repetidas vezes, não conseguia dormir de modo algum. Além da alta temperatura, algo crepitava em seu coração, uma faísca de ódio e rancor que a incomodava demasiado. Cada vez mais inquieta, resolveu ir ao banheiro lavar o rosto, a fim de se refrescar e aproveitar o pouco que lhe restava até a hora de acordar.
       Ao rosquear a torneira, descobriu que estava sem água e lembrou-se da conta atrasada na mesinha da sala, o que seria um grande problema, pois ela havia planejado tomar um banho antes de mais um dia exaustivo de trabalho monótono. Sem chances de lavar o rosto ou de se banhar, rumou à cozinha, sedenta, pensando na garrafa de água refrescante que esperava por ela. Pegou um de seus inúmeros copos de requeijão no armário acima do microondas e abriu a geladeira. Enquanto dava os últimos goles, notou certa saliência no fundo do copo de vidro. Tinha a aparência e o tamanho de um grão de arroz escuro, e poderia jurar que, inexplicavelmente, era um, exceto pela surpresa ao notar que o tal grão movimentava-se. Olhou por fora do vidro para reconhecer o que seria aquilo. Aproximou os olhos do copo e identificou a estranha criatura: uma larva de mosquito.
       Surpresa, enjoada e principalmente decepcionada por ter bebido quase toda a água sem notar o inseto, debruçou-se na pia da cozinha e pôs abaixo não somente o que bebera, mas também tudo o que havia jantado na noite anterior. Sarcástica como só ela, ainda agradeceu ironicamente por ter regurgitado um jantar tão desprazeroso como o que tivera. Só ao terminar é que caiu em si de que não havia água, o que a forçou a virar o resto do conteúdo da garrafa diretamente na pia, levando embora possíveis más lembranças.
       De volta ao quarto, jogou-se no colchão, um tanto exausta. Olhou para o rádio relógio no criado-mudo e concluiu que teria pouco mais de 15 minutos de sono, e, definitivamente, não deveria desperdiçar uma chance como essa. Relaxada, virou-se e despencou em sono profundo; sono tão profundo que delirou. Estava em um quarto bonito, mas muito peculiar, onde variadas taças dos mais finos cristais organizavam-se em ordem de tamanho nos cantos da penteadeira. No centro, um espelho manchado refletia o conteúdo vermelho brilhante de uma dessas taças, uma das quais não seguia a mesma ordem. Posicionada ao centro do móvel, aparentava ser a mais bela e delicada. Curiosa, Lúcia cruzou o cômodo em busca da peça. Ergueu-a com todo o cuidado, encantada com a maravilha que tinha entre as palmas das mãos. Aproximou-a do rosto e conclui pelo odor que havia vinho tinto dentro. Instantaneamente, a sede tomou conta de todo o seu corpo e a solução estava, literalmente, debaixo de seu nariz. Desconfiada, aproximou ainda mais a taça, curvando-a lentamente para tocar o líquido com os lábios.
       Uma fração de segundo antes de apreciar a bebida, sentiu uma forte fisgada na nuca, o que a fez derrubar bruscamente tamanha preciosidade e todo o seu conteúdo. O cristal nobre partiu-se em dezenas de cacos, seguido de tantos outros estouros e estilhaços das outras taças sobre a penteadeira; enquanto o vinho percorria o piso branco do quarto e o manchava de vermelho-sangue. O ruído era ensurdecedor, as peças partiam-se súbita e sequencialmente. Lúcia protegeu o rosto dos fragmentos que ainda irrompiam pelo cômodo, mas não conseguiu evitar ser atingida por um deles, que acertou em cheio a parte superior da cabeça. Um filete de sangue quente alcançou facilmente sua sobrancelha e...
       O alarme do rádio relógio disparava como louco. Lúcia limpou a gota de suor que escorria do cabelo à testa e desarmou o aparelho. Levantou-se exausta, arrancou a camisola e jogou-a na cama desarrumada. Como não havia tomado banho, trocou-se e, conseqüentemente, saiu mais cedo de casa. No caminho, um rapaz ajeitava uma mensagem colada na porta de vidro de sua adega, ao mesmo tempo em que pendurava uma fita preta logo abaixo. A situação constrangera e angustiara Lúcia, que acelerou seus passos inexplicavelmente, pois não estava com pressa, tampouco atrasada.
       Assim que chegou ao trabalho, procurou caminhar até sua mesa sem olhar para os lados, evitando cumprimentar qualquer um. Tudo o que ela queria era sentar-se em frente ao velho computador e fazer o que melhor sabia: importar e vender canetas de luxo. As vendas iam muito bem, mas Lúcia não demonstrava estar contente. Apoiou o cotovelo na mesa e descansou a cabeça no punho; esqueceu-se de onde estava, de quem era, do que estava fazendo, em quem estava pensando...
       “... Lúcia! Lúcia!” – disse Vanessa, uma amiga de trabalho.
       “Hã? Quê? Hã?” – respondeu, ainda aérea.
       “É a quarta vez que falo com você e você não responde.”
       “Desculpa, Van, estou meio desligada. Mas o que você queria?”
       “Ah, bem lembrado: não acho a minha caneta, me empresta a sua?” – questionou, enquanto apontava para o bolso da jaqueta jeans da amiga, onde repousava uma belíssima Montblanc reluzente.
       “Desculpa, mas... hum... acabou a tinta.” – argumentou Lúcia, mas estava certa de que não tinha sido convincente.
       “Ok, vou ver se acho uma perdida por aí.”
       “Isso, faz isso, porque o que não pode faltar por aqui é caneta, certo?” – e forjou um sorriso simpático.
       De volta ao trabalho, terminou de responder e-mails de clientes e saiu para o almoço. Procurou uma mesa distante e caminhou discretamente até ela. Foi fácil não ser notada, o barulho dos enormes ventiladores espalhados pelo restaurante camuflaria até o mais violento estrondo. Embora fizesse muito calor, a quantidade de pessoas reunidas no estabelecimento era assustadora. Famílias inteiras jogando conversa fora, amigos falando sobre banalidades enquanto saboreavam pratos gordurosos.
       Lúcia pediu água e uma salada leve, ainda estava pensativa e comer demais só a faria ficar pior. Esperou o garçom ir à mesa vizinha e analisou meticulosamente o copo, à procura de qualquer coisa que não fosse água. Estava tão transtornada que chegou a pensar na possibilidade de ter engolido uma larva de mosquito sem ter notado, já que encontrara uma recentemente.
       Ao fim do almoço e do expediente, voltou caminhando para casa, a aflição congelava seus membros. Passando pela mesma adega que vira na ida, parou e tentou ver através do reflexo do vidro. Subitamente, o dono do local avistou-a pelo lado de dentro e caminhou até a porta.
       “Sinto muito, mas estamos de luto desde que um de nossos funcionários desapareceu. A mãe dele não consegue explicar o porquê, mas tem certeza de que ele já desencarnou. Não temos previsão de quando reabriremos.” – explicou.
       “Ah, me desculpe, eu só estava olhando enquanto passava, não queria incomodar.” – e continuou seu caminho, evitando estender a conversa.
       Lúcia estava inquieta, sentiu sua garganta travar de nervosismo e achou melhor acelerar ainda mais. Ela já não andava, corria. Ofegante, deixou a porta entreaberta e seguiu em direção ao bar no canto da sala, com a mesma sensação que tivera no sonho: precisava beber alguma coisa urgentemente.
       “Mas que droga! Só tem vinho nessa porcaria de bar!” – e arremessou a garrafa, que cruzou o cômodo e chocou-se contra a parede, tingindo a cortina de um vermelho incandescente.
       Irritada, virou tudo o que encontrou na prateleira à sua frente e, quando se abaixou decidida a virar a mesinha de centro, sentiu seu bolso ficar mais leve, seguido de um impacto agudo. Lá estava ela: manchada e com a ponta torta, a sua não tão mais reluzente Montblanc, mas que ainda refletia os fortes raios de Sol que penetravam por entre as frestas da persiana.
       Tudo aquilo que ela tão exaustivamente tentara esquecer estava voltando à tona com cada vez mais força. No jardim aos fundos, a grama já cobria quase toda a terra, principalmente a área onde ela escondera o corpo de Fábio, funcionário da adega cujos donos estavam de luto. Lembrou-se de como ela havia sido maltratada no jantar que tivera com ele, e de como habilmente fincara a caneta tinteiro nas costas do rapaz, que, ainda sangrando, cambaleou e caiu no tapete da sala, onde permaneceu até perder o brilho no olhar.
       Refrescar a memória só a deixou mais transtornada, tinha se arrependido profundamente, mas esse argumento não melhoraria em nada a sua situação assim que fosse descoberta; e não estava disposta a passar o resto da vida atrás das grades. Desesperada, encontrou no gabinete do banheiro a solução para seu remorso, a cura para seus medos, e a punição para seus pecados; lentamente apertou o gatilho e, no segundo seguinte, estava de bruços no chão do lavabo.
       Seus olhos entreabertos pareciam fugir das órbitas, bem como a gota singela de sangue que teimava em surgir e escorrer pelo canto dos lábios. Lúcia quebrara o mais precioso de todos os cristais: a vida.

Tempestade de Sonhos Perdidos

Sinto-me num quarto escuro
Onde nem a luz irá iluminar.
Como se a vida fosse o sofrimento
Que só a morte pudesse aliviar.

Eu caminho aparentemente sozinhoTempestade de Sonhos Perdidos.
Mas a angústia parece me acompanhar.
Descalço, pisando em espinhos,
Noto que a alegria resolveu me deixar.

Quando todos te fazem sofrer,
Quando a vida não tem mais sentido,
Quando não há motivo pelo qual viver.

Será que ainda haverá reversão?!
A tempestade de sonhos perdidos
Já devastou o meu coração.

(Rodrigo Colombaro)

Nota: este soneto foi feito há algum tempo, não há qualquer relação com a véspera do Natal. Amanhã trarei mais um conto, então aguardo a sua visita. :}

sábado, 22 de dezembro de 2007

O Ano Novo que Não Veio

       Dia frio e cinzento de mais uma véspera de Ano Novo. Kátia passou horas sentada na cadeira de balanço que fora de sua avó, enquanto esperava pela ligação de seu namorado. A angústia consumia suas entranhadas, dilacerava suas vísceras, como se quisesse dominar todo o seu ser. Cada minuto passava com tamanha demora que ela já havia se conformado de ter estado sentada por pelo menos décadas. A ansiedade por um telefonema de seu amado corroia seu estômago, ela sentia como se fosse engasgar...
       Rejeitou o almoço e o café da tarde para não desgrudar do telefone, esperava por um toque frenético a qualquer momento; mas esse toque não chegou. Adormeceu sobre o encosto da cadeira e sonhou...
Adormeceu sobre o encosto da cadeira e sonhou...       Sonhou com a beleza da vida, com o frescor da brisa em seu rosto, com os relaxantes pingos de chuva, o calor da areia macia da praia e o bater da água nas rochas. Imaginou-se linda, em seu vestido azul turquesa, caminhando pela costa de uma belíssima praia. Seus pés tocavam a areia molhada, e eram acariciados pelas fracas ondas que vinham em seu encontro. Caminhava mais adiante, e não se cansava de ir além. No horizonte, união sublime entre céu e mar, avistou um navio, observou-o curiosa, e notou que este alterara seu curso e vinha em sua direção, mas ainda muito longe.
       Fechou os olhos e pôde ouvir o canto das gaivotas e, ao fundo, a buzina da embarcação. O som tomava cada vez mais conta de seus ouvidos, ia se tornando mais nítido... Ela já não ouvia apenas a buzina, mas um sussurro tranqüilo que parecia querer dizer algo, algo que seus ouvidos mortais tentavam decifrar...
       TRIRIRIRIM! TRIRIRIRIM! O telefone tocara. Ela já não estava mais ansiosa por esta ligação, o sonho havia lhe tomado a atenção e sua vontade era voltar a dormir e tentar compreender. Hesitando, atendeu ao telefone:
       “Alô?” – disse.
       “Kátia? Oi, amor, aqui é o Lucas. Mil perdões por não ter te ligado antes, juro que tentei entrar em contato, mas tive uma viagem difícil, o trajeto foi conturbado, mas agora estou bem, e fico muito contente por saber que o mesmo se passa contigo”.
       “Lucas? O que aconteceu? Do que você está falando? Está perdido? Alguém te machucou? Estou indo te encontrar!”
       “Amor, é melhor você ficar em casa e esperar que eu retorne, ok?” – disse o namorado.
       Aflita, preferiu aguardar. Novamente, a angústia consumiu seus pensamentos, formigou seus membros e fez o sangue circular com mais intensidade. Ao embalo do “tic-tac” do relógio, voltou a cochilar, e pôde se ver na mesma praia, com o mesmo vestido azul, sobre a mesma areia macia, caminhando à beira mar, até ser envolvida pelo mesmo sussurro.
       Curiosa para entender o significava, fechou os olhos na tentativa de compreender a mensagem, que fora bruscamente interrompida pelo sopro violento de um vento raivoso. O clima mudara: o mar não acariciava mais seus pés, as gaivotas não mais cantavam, o sol dera lugar a nuvens escuras, enquanto as rochas resistiam às fortes pancadas das ondas. A areia esfriou-se rapidamente com a chuva forte que tomou conta de toda a costa.
       Preocupada, correu sem parar em busca de um abrigo, mas não encontrou. Trovejava muito, ela não podia ficar ali. Decidiu fazer o caminho de volta correndo com mais velocidade e, enquanto corria, tornou a ouvir o sussurro, mas já não era mais suave. A voz doce havia dado lugar a um som agressivo, ríspido e gélido. Como já não compreendia, resolveu não dar atenção à curiosidade e buscar proteção. Sentada sobre a areia, acomodou a cabeça entre as mãos e pôde novamente ouvir a buzina ensurdecedora daquele navio e...
       Havia acordado outra vez. Estava na sala, sentada sobre a mesma cadeira de ... lá estava Lucas, sentado na grama verde e brilhante.balanço que fora de sua avó, mas o cômodo não parecia como antes. As janelas não estavam mais sujas, os móveis brilhavam, e as flores mostravam-se mais vivas do que nunca. Kátia atravessou o corredor rumo ao jardim e lá estava Lucas, sentado na grama verde e brilhante. Sentou-se ao seu lado.
       “Lucas, você está bem? Chegou faz muito tempo? Adormeci e não devo ter te ouvido entrar.”
       “Estou sim, apenas preocupado, estava sozinho e você parecia não chegar.” – disse ele.
       “Como assim? Estive adormecida na sala o tempo todo, você podia ter me acordado.”
       “Eu bem que tentei, mas não era uma decisão que cabia a mim.”
       “Do que você está falando? E quem arrumou a sala?”
       “Kátia, quero que você compreenda...”
       “Compreender o quê?!” – gritou confusa.
       “O navio em sua direção avisando-a de uma viagem, a buzina... não estava tudo claro? Eu também pude ouvi-la, senti o frescor da brisa, vi o mar reverenciá-la, ouvi o cantar das gaivotas... tentei te chamar várias vezes...”
       “A voz... aquela voz era sua? Por que eu não pude entender?”
       “Porque havia um finíssimo obstáculo entre nós, uma divisão que não podemos quebrar e que sempre se desfaz sozinha: a vida.”
       “O quê? Aonde você quer chegar?” – disse enquanto se apalpava, e pôde sentir a textura do vestido azul turquesa que usara no sonho.
       “Querida, vá até a sala, creio que tudo ficará claro.”
       Caminhou de volta ao cômodo em passos curtos e silenciosos. Estava muito confusa, não se lembrava de ter trocado de roupa, tampouco de como a sala havia sido arrumada. Avistou de longe as costas da cadeira de balanço, no mesmo lugar onde sempre estivera. Forçou os olhos para reconhecer o que era aquele contorno. Aproximando-se cada vez mais lentamente, pôde reconhecer sedosos cabelos negros iguais aos seus. Prendeu a respiração, na tentativa de surpreender quem quer que estivesse sentado ali. Ironicamente, a única pessoa surpresa fora ela mesma, quando reconheceu os cabelos e o agasalho batido como seus. Mãos sob o rosto e olhos serenos, certamente estava adormecida.
       A passagem de ano já não lhe fazia diferença, havia passado a última de todas as fronteiras. Adormecera eternamente.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Presente Vindo do Céu

Era véspera do nascimento de Cristo
E Júlia esperava ver Papai Noel.
Sua mãe perguntava: "Júlia, que é isto?
Deu pra ficar olhando pro céu?"

A menina nem explicava
O porquê de sua observação,Papai Noel.
Apenas olhava, olhava...
Cada vez com mais emoção.

"Mamãe, olhe para cima
Veja que, no horizonte,
Muito além daquele monte,
Vive o bom Noel,
Que recebe cartinhas de papel
E faz sonho se tornar realidade,
Trazendo conforto e felicidade
Aos lares de todo o planeta."

"Filha, estás ficando zureta?
Papai Noel não existe,
Sinto muito por te deixar triste,
Mas não posso lhe dar certeza
De que o banquete que temos à mesa
É obra do bom velhinho,
A não ser que o nosso vizinho
Esconde barba e gorro vermelhinho."

"Mãe, você não está entendendo,Papai Noel.
Preste atenção no céu, está vendo?
Fica depois daquela colina,
Sim, isso mesmo, lá em cima,
Onde mora São Nicolau
Que faz desta data singela..."
"Não vejo nada além da janela!"
"... um dia muito especial.
Não se esqueça que só temos Natal,
Porque Jesus veio a nascer."

"Mas, filha, você não deve se esquecer
De que esta data é muito importante
Seja aqui ou num reino distante,
Portanto, me abrace e vamos comemorar.
Hoje, a vida merece brindar
A enorme felicidade,
E não nos importa a idade,
Raça, cor ou religião;
Apenas os sentimentos de verdade
Que temos no coração."

(Rodrigo Colombaro)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

No "tic-tac" da Vida...

       O tempo é tão complexo, não é? Há vezes em que paramos com ele, e outras em que a velocidade é tanta que tudo passa diante de nossos olhos sem percebermos. Momentos tão unicamente inesquecíveis, inexplicavelmente incríveis, mas que se foram como bolhas de sabão ao vento, distantes demais para serem vistas estourar.Não espere que o tempo se adeque à sua vida.
       Então a vida nos impõe dificuldades, mas nos envolvemos tão sentimentalmente em cada problema que esquecemos o verdadeiro propósito destes obstáculos: superá-los com dignidade e força. Deus é prudente o bastante para saber o que somos capazes de enfrentar, e nunca nos dá uma missão que não possa ser perfeitamente concluída.
       E nós, seres curiosos, questionamos a todo o momento sobre tudo e todos, sobre o começo e o fim, sobre o alegre e o triste, sobre a vida e a morte, sobre o ser e o não ser; enquanto as respostas para todos os conflitos de nossa existência estão sempre próximas demais para enxergarmos, e é preciso imparcialidade e paciência para compreender o porquê. Já temos as lembranças, as dúvidas e as respostas que precisam ser encontradas... Só nos falta algo simples e inalterável: o tempo.
       Passar a vida ao lado de quem se ama torna único qualquer que seja o momento, suaviza as dificuldades e livra-nos de tudo aquilo que deve ser esquecido. Viver com o mais sublime amor faz de nós pessoas mais maduras para encarar os problemas, compreendê-los e solucioná-los com garra na medida certa de cada situação. Neste meio tempo, pelas graças e bênçãos de Deus, é possível acompanhar cada vitória, cada nova vida que chega à Terra, cada novo ser que confirma a célebre frase de que o tempo, definitivamente, não pára.
       Aproveite a vida com cada vez mais intensidade. Não acumule sentimentos ou planos; extravase-os, realize-os e sejam dias, meses, anos ou toda a eternidade: confie em Deus!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Estilhaços do Ser

Sinto-me fragmentado
Em mil pedaços.
Resquícios de papel queimado
E barras de aço.

Fragmentos de todos,
Fragmentos de mim.Estilhaços do Ser.
Partículas do não
E [partículas] do sim.

Fragmentos da vida,
Fragmentos da morte.
Não mais do que
Pedaços grafados à sorte.

Vontades do "quero"
E conquistas do "posso".
Do infinito ao zero,
O seu, o meu, o nosso

... fragmento.

(Rodrigo Colombaro)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

"Feche a porta e me deixe sozinho, por favor?!"

       É realmente assustador como, a cada dia, mais e mais pessoas têm estado sozinhas por opção. Não, não estou nem um pouco interessado se são solteiras, separadas, ou qualquer outra relação conjugal. Refiro-me ao fato de que nós, seres humanos, estamos seguindo uma direção em que só cabemos nós mesmos. Não é difícil encontrar alguém em um canto, lendo, escrevendo ou escutando músicas sozinho. Incrível como temos nos tornado tão individuais...
       A tecnologia tem contribuído (e MUITO!) para que estejamos cada vez mais solitários. São inúmeros os que aderiram à moda dos famosos eme-pê-três, eme-pê-quatros e eme-pê-seja-lá-qual-for-o-número. Música, até onde conheço, sempre fez muito bem à saúde, porém, vale ressaltar que estes aparelhinhos teimam em nos distanciar consideravelmente do convívio social. Escolhemos em nossos aparelhos as músicas que mais nos agradam e ouvimos na ordem programada de acordo com o nosso gosto.
       Em países mais pobres, onde a tevê é um luxo, é comum encontrar a vizinhança reunida somente para assistir às novelas, por exemplo; enquanto que, em países onde essa tecnologia é acessível, como o Brasil, a tendência é que cada cômodo tenha um aparelho televisor para que possamos assistir aos nossos programas preferidos sem brigar pelo controle remoto.
       Não nego que também sou fanático por tecnologia, avanços, novidades e invenções que tornam a vida mais prática, até porque, neste momento, estou escrevendo de meu computador, em meu quarto, ouvindo as músicas que me agradam no programa de minha preferência. Mas temos nossos momentos de convívio e é preciso dosá-los, jamais desperdiçando-os.
       Somos seres rudes o bastante para brigar com alguém e dar-lhe as costas, mas extremamente fracos a ponto de não vivermos sozinhos. Dependemos dos outros o tempo todo; seja de afeto, atenção, conselhos e até mesmo broncas ou brigas; e essa dependência é revertida em revolta, tristeza e, posteriormente, saudade, quando não temos mais conosco aquela pessoa que parecia preencher nossas lacunas.

Nós,
Estaremos cada vez mais sozinhos?
Seres humanos,
Estamos,
Cada vez mais
Individuais
E sós.


Preferimos estar acompanhados
Pela solidão
Do que isolados
Na multidão
Sem voz?


(Rodrigo Colombaro)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Bomba dos Vivos

Mais um dia se passou
E muito mais gente chorou,
Sem saber se quer o porquê
A vida foi assim querer.
Bomba dos Vivos.
Não sabemos o que está acontecendo,
Tantos filhos estão morrendo.
Dessa terra que nós nascemos,
Muitas mães estão sofrendo.

E o avanço que prometia
O fim da morte, a tecnologia,
Hoje só nos traz tristeza,
A extinção da natureza.

Muitos não sabem o que é isso,
É a grande bomba dos vivos,
Onde estamos todos confinados
A virarmos apenas marcas do passado.

(Rodrigo Colombaro)

domingo, 16 de dezembro de 2007

Refazendo a mente, construindo um ambiente.

Saudações! :}

       Há quanto tempo este blog foi criado e nada, nele, foi exposto.
Pensei em manipular letras e transformar pensamentos em palavras, mas o ânimo foi sumindo, sumindo... sumin... até que desapareceu.
Resolvi voltar depois de me surpreender com o blog da Luana, que, definitivamente, chegou em boa hora para me inspirar a criar, compor e mostrar aqui um pouco daquilo que escrevo.
       Embora muitos considerem a discordância um defeito, eu estimo muito esse meu talento para não concordar com nada, nem ninguém. Claro que discordar pelo simples prazer de ser irritante é realmente uma atitude a qual eu desprezo, porém, quando há bons e convincentes argumentos, ir contra o pensamento dos outros é realmente impactante. (: Eu gosto de explorar novas opiniões em mim mesmo, e aprecio discutí-las com os outros.
       Como o horário já não favorece, finalizo este post aqui só com estas calorosas saudações. Desabafos, críticas e composições ficam para a próxima postagem. Até mais!